Palácio onírico


E quando eu perceber que tudo foi um sonho, apesar da radiante realidade vivenciada no palácio de Hipnos, abrirei meus olhos repletos de lágrimas, olharei para as cobertas que me envolveram durante a noite, já tão frias e sem sentidos, perdido na imensidão das lembranças de uma madrugada bela e distante. Sentirei o peso das paredes sempre iguais a me esmagar o peito. Escutarei o riso humilhante do palhaço da realidade e chorarei junto a ele, executando um réquiem dissonante e macabro.
Quando eu perceber que tudo não passou de um sonho, me prenderei às lembranças, me armarei com a saudade, matando a cruel e fria realidade. Cairei no abismo da insanidade, tornando este meu cárcere, negando a suposta liberdade dos dias mecânicos e iguais. Procurarei a cada noite, a cada cerrar de olhos, o caminho de volta para o meu mundo de contos-de-fadas. Mesmo que eu encontre no caminho barreiras, abismos, labirintos e escadas, mesmo assim persistirei em minha jornada, negando as viciantes vias do que dizem ser a verdade.
Quando eu sentir a dor do regresso do mundo dos sonhos não verei mais sentido nas paredes frias, na cama desarrumada e vazia, no retrato amarelado pelo passar dos dias.
Quando eu perceber que tudo foi só um sonho, me condenarei por ter bebido do cálice da felicidade enquanto visitava a ilha mágica onírica, rasgando os dogmas da realidade programada e me tornando um assassino de paredes de concreto.
Quando eu perceber que tudo foi só um sonho, negarei as correntes que forjaram para mim e sairei em busca das lembranças que só para mim fazem sentido, tentando achar o caminho para o meu mundo de verdade, para vocês fictício.


Descanso


E quando chegar a noite e todos estiver dormindo, eu encostarei minha cabeça cansada no travesseiro da consolação e deixarei que meu olhar caminhe por onde ele quiser, longe de mim mesmo, em algum lugar em que eu possa me encontrar.
Serei levado para o lugar que não conheço, mas que mesmo assim me provoca saudades, me afoga os olhos e me aperta o peito. Não me perguntarei para onde estarei indo, deixar-me-ei ser conduzido como que por sábio guia. Nesta noite fria e silenciosa quero apenas o conforto de uma mente tranqüila. Serei grato se o cavaleiro dos sonhos levarem-me para longe do que ficou no passado e sorrirei ao seu lado, sem proferir uma única palavra, alimentando-me da verdade dos horizontes.
Estarei apenas repousando em uma poltrona, com a cabeça amparada por um travesseiro, confidente de pacatas horas, mas minha alma estará a léguas de distância, saltando mundos, brincando com os ventos, comungando com a vida.
Talvez eu me recorde do conforto daqueles braços, da ternura daquele colo, da segurança daquela que é mãe, amante e rainha. Talvez... Mas nesta noite eu estarei perdido em mim mesmo, errando nas infinitas estradas do meu espírito. E se ela está comigo, é em meu profundo ser que encontrarei a sua essência, já parte de mim, na câmara secreta do meu coração. Continuarei seguindo...
Quando os ventos silenciarem e os pássaros meditarem em seus ninhos, pedirei à noite que me conte uma história para dormir. E quando eu for levado na carruagem dos irmãos Sono e Sonho, que ela me beije, depositando em mim todo o carinho que só uma mãe é capaz de dar. E que me cubra com seu manto de estrelas, deixando-me na companhia do amor que sinto por todos aqueles que habitam no mundo no qual descanso.


O rio incessante



Eu, rio sempre a correr, incessante em minha busca, como astro sendo atraído pela grandeza do deus-sol. Vejo passar diante dos meus olhos pessoas que acenam dizendo que estão partindo ou dizendo que estão chegando.
Eu, rio que se precipita nas alturas e vira véu d’água. Rio que vira chuva. Que cai, que corre, que não para. Rio de minhas passagens... Ilusório rio passageiro. Incessante rio que corre por amor, que não vê a hora de encontrar seu mar, que não vê a hora de se misturar com aquela que lhe é maior.
Rio que às vezes pensa em ser lago: constante e calmo. Rio que às vezes deseja o cárcere de um poço. Rio que não cansa e que está sempre buscando. Vendo tudo passar acenando. Vendo os laços se soltarem e se amarrarem em repetitiva dança. Rio incessante. Que às vezes vira chuva e chora. Distante...

E tu estavas lá...


As mais belas saudações do reino encantado de meu ser. Que te cubra de flores as Ninfas testemunhas do amor que por ti sinto. De uma janela inocente, do alto do templo que habita meu espírito, olha a distância, embriagado pela profundeza dos horizontes. Lá, distante, onde nessas horas posso encontrar-te, sendo sagrado pelo tempo, portando meu estandarte de luz e trevas, em conexão com tua alma.
Quantas vidas se passaram? Por quantas eras passei registrando meus passos? Entre erros e acertos em meu trajeto no circular da roda do carma. Na boa senda ou envolvido pelo vicio do astral baixo. Lá, sempre presente, em diferentes lugares e corpos, em tantas tarefas e aprendizados, sendo peregrino nos corredores do tempo. Vendo passar nos olhos da alma diversos corpos e faces. Ajudando a compor a grande obra dos reis dos astros. E tu estavas lá... Sempre esteve. Entre dores e êxtases, entre risos e lágrimas. Em encontros e desencontros, despedidas e lágrimas, reencontros, celebrações e momentos mágicos. Sim, tu estavas lá. Como mãe, amiga, filha, amante. Mas sempre lá... Pois desde o inicio destes tempos em Gaia fomos predestinados a cumprirmos juntos algo. Quantas feridas já não ajudastes a curar? Quantas também não causamos em parte? Sim, pois muitas foram as faces e casas onde estávamos. E viemos aprendendo casa por casa. Quantas alegrias já não causamos um ao outro? Mesmo naquelas vidas onde nossa missão um com o outro foi apenas a de uma breve troca de olhares... Você se lembra? Ainda posso sentir o cheiro do mar, o vento nos altos montes, o calor dos tantos abraços, a sombra de cada árvore. Posso sentir, abrindo as frestas do enigmático baú do tempo e nos encontrando, desde que éramos átomo do mesmo átomo.
Quantos e quantas já não fomos um dia? E ainda hoje podermos nos encontrar... Dessa vez para cumprir algo do Alto; dessa vez para cumprir algo bem mais intenso que uma troca de olhares. Fico a pensar, do alto de minha colina encantada, sobre as vidas, as missões, as pessoas que de nós se faz parte. Quantos viemos há tanto tempo no mesmo barco? E paro então de pensar, perdido no emaranhado do fio do destino. E junto ao imensurável mistério fico a dar risadas. Achando graça dos desígnios da Alma. Vendo como tudo é costurado. E me deixo então pelos ventos, perdido na distância à divagar sobre o Tudo e o Nada. Entre tantas pessoas como fomos nos encontrar? Com tantas vias como fomos nos achar? Predestinação ou acaso? Missões sagradas. Já tive certeza outrora de que o acaso pertence tão somente aos tolos e fracos. Ninguém está na sua vida por acaso. E uma simples troca de olhares pode ser proposital para uma vida, mesmo que seja este o único papel em uma das tantas investidas da nômade alma. Vai entender o destino... Antes o destino do que o acaso. Apenas sei que do alto de minha colina distante fico a olhar para tudo que sempre fui e sou. E assim agradeço pela bela alma que por tanto tempo vem a me acompanhar. Se hoje amante, esposa, ontem amiga, filha, irmã, mestra, avó, genitora. Mas sempre importante... Pois desde aquela vez, quando em um olhar nos encontramos, lá distante, quando tínhamos outros nomes, tive a certeza da missão e do sagrado encontro. E desde então, enfrentando feras e lapidando egos, viemos seguindo, descobrindo momentos e momentos, cada qual com sua parte, com o papel que lhe cabe. Mas sempre juntos. Mesmo quando das vezes que viemos em lugares tão afastados, falando línguas tão diferentes e em condições totalmente diferenciadas... Pois a nossa união é a da alma.
Portanto, quantas vidas ainda eu tiver que habitar no reino de Gaia, ou em qualquer ponto do enigmático Cosmo, quero poder comungar com tua alma. Seja como filho ou como par sagrado, seja como mestre ou discípulo, seja como amigo ou irmão, seja como homem ou alma... Mas que seja! Que seja eterno e registrado em cada célula do meu sacrário. Que importante seja e assim sagrado. Que seja sempre belo e necessário. Seja qual for a missão, seja qual for a nossa parte...


Vida (?)

O que fazemos de nossas vidas? Por qual perspectiva você vê a sua vida? Vida? Estamos presos a conceitos e dessa forma fica difícil viver o que seria realmente a vida. E esquecem os homens da riqueza que no instante existe. Mas é o preço por querermos congelar o incessante infinito. E então sofremos. E então nos perdemos no corredor do tempo... Ah, os instantes... Esses eternos deuses que chegam de surpresa e tatuam a pele de nossas lembranças. Estes que estão sempre a visitar o sacrário de nossos seres. Mas anjos estão sempre em movimento, estão sempre chegando e partindo. E o que fica? Sua aura radiante, a visão inesquecível, a satisfação do instante vivido, o êxtase do milagre fulminante, a alegria da lembrança que se alastra feito chama, a intensidade de um raio que cai e marca a rocha para sempre. E a rocha nunca mais será a mesma... Trará em si a cicatriz divina. Alma rasgada. Árvore aberta no tronco e para sempre marcada. Árvore antiga e sábia.
Eu, olhar vago perdido em horizonte. Eu, nuvem que vira lágrima, que empoça e mata a sede, que se dissipa em névoa e novamente volta a ser nuvem a chorar. Eu, metamorfose, fogo, movimento, vida. Vida... Voltamos à vida. E eu novamente pergunto: Por qual perspectiva você vê a sua vida? Vida? Conhecer a palavra “vida” é uma coisa, mas a vida nunca poderia se limitar a um vocábulo egoísta. Mas o que fazer se somos formadores de prisões-conceitos, se armamos um palco para contracenarmos nele? Tudo é movimento. E não há nada mais sagrado que a beleza de um momento. Viver é comungar com o instante presente. Mas como entender, se amanhã esse mesmo instante será lembrança e findará em chuva a nuvem passageira? “Findará”? O verbo mais adequado seria “transformar”. Mas como entender a fogueira? Ela, que arde, que queima, que encanta, que aquece, que conforta, que vira cinzas...e então é espalhada pelos ventos... Mas não se deve tentar entender as fogueiras — que mania essa a do homem de querer entender tudo! Deve-se, sim, buscar viver a fogueira, estes momentos que são labaredas. Mas bem sei que existem os loucos que se lançam dentro da fogueira... Mundo de extremos... Eu, sacerdote do equilíbrio, anjo e demônio em dança perfeita, luz e trevas que se devoram orgiacamente. Eu, eloqüente... Poeta do absurdo. Discípulo de Hermes, mensageiro dos deuses, intermediador de céu e terra, alma fundida em carne. Viajante do tempo. Estrela cadente. Anjo esplendoroso em queda, arriscando toda sua glória eterna pelo simples desejo de sentir-se gente. Corajoso ao desafiar Deus. Sábio por saber ser ele o próprio Deus em reflexo. Tolo por querer caçar momentos. De anjo à caçador de borboletas. De que adianta eternizar as belas asas coloridas e sedutoras se a real beleza está na metamorfose da lagarta em borboleta? Se a real beleza está no casulo envolvente e passageiro... Se a real beleza está presente no balé aéreo de seu vôo...
E cá estou eu, entre anjos, fogueiras e borboletas... Preenchendo momentos, filosofando sobre o ato de “viver”, congelando palavras, somente. Mas o real instante, esse não caberá em simples linhas, em uma folha de papel. Tentativas vãs de se tentar traduzir o que é para ser eterno. Tais instantes somente o coração (a alma) é capaz de guardar com um pouco de clareza e fidelidade, mas não completamente...
Sagrado então seja o momento e suas marcas latentes no seio do pensamento. Sagrado seja o fio das tecedeiras do destino. Sagrado seja o fogo que se eterniza na lâmpada de nossos seres. Isso é vida — essa síntese... E por mais que eu tente traduzir o que sinto, só posso dizer que agradeço, simplesmente porque o instante existe. E assim eu sigo, sendo espectador e artista nesse imenso palco que é a vida. Vida... Voltamos à vida...
Até outro dia... Ou, até outra “vida”... Até...

Barro

Pois se em verdade
Fomos feitos de barro
Que se faça um castelo
Que se faça uma casa
Se do barro fui feito carne
Que seja então templo
Que seja então santuário
Ou então que seja simples barro
Moído, solto, refinado
E que o vento me espalhe
Por todos os lugares
Se em verdade fui barro
Que seja então carne
Que seja parte
Seja metade
Para que o vento me espalhe
Para que eu encontre meu curso
E enfim a parte que me falta.


O regador de sonhos


Descubro-me
Percebo-me
Em um repentino momento
Sou apresentado a mim mesmo
E desconheço-me
Conhecendo tão bem
Procurei ver Deus
E o encontrei em mim mesmo
Mergulhando em abismo profundo
Voltando vivo do inferno
Sendo anjo demoníaco
E demônio celestial
Encantando e assustando
Chegando e partindo
Me marcando e marcando
Se digo não me entender
É fuga, é engano
Pois sei de tudo que sou
E penso no meu mundo
Mundo habitado pelos que amo
E que esquece que sou feito de sonhos
Amor e ódio em alquímica dança
Levando-me a matar e ver o sangue
Quando eu só queria descanso
Uma árvore, uma montanha, um pouso
Levando-me a trazer apenas lembranças
Seguindo meu destino como sábio-louco
Regando mil flores
Negando a bebida amarga da dor
Antes beberia mel, beberia um corpo
Comungar com o belo que encontro
Mas bem sei que a beleza aprisiona
E o desejo pode ser vicioso
Como um pássaro radioso
Que se condena por suas cores
E pode seu canto se tornar choro
Assim vai seguindo o pássaro
Às vezes águia, às vezes corvo
Ciente do eremita que se esconde
Que está sempre partindo e chegando
Colhendo e plantando
Aonde sua alma aponta
Sempre seguindo
Guardando a lembrança
E regando seus sonhos...

Hórus


Eu vejo carneiros seguindo não sei pra onde, sendo guiados por lobos. Há muito que a mãe foi traída e o pai assumiu o seu trono de força. Porém, o tempo dos ditadores e das correntes da ignorância também se foi. Isis e Osíris deixaram seu filho Hórus e o novo sol aos poucos vai esquentando o corpo frio de outrora. A nova era regida pelo falcão acelera tudo à sua volta, traz renovação e mudança. Porém, continuo a ver carneiros seguindo lobos... Cegos em sua marcha santa para não sei onde, ainda à espera do deus morto, aceitando ordens do rei sem trono. Não enxergam que o tempo é outro. Seguem sem ver o falcão que os sobrevoa. E há ainda quem conte os inocentes carneirinhos para não perder o sono...
Alguns carneiros, os que vão à frente, ainda conseguem ver o horizonte, uma esperança. Mas os que vão atrás apenas conseguem ver o rabo de seus semelhantes. Que belo horizonte...
O falcão grita, mas carneiros são tolos e apenas entendem berros. O falcão sobrevoa, mas carneiros não olham para cima, olham apenas para o rabo dos outros. Se ao menos percebessem o falcão a projetar sua majestosa sombra... Espertos são os lobos que pastoreiam seus tolos. Mas vez por outra um carneiro se dá conta e foge. Alguns percebem o falcão que sobrevoa, outros se cansam de cheirar o rabo dos outros e outros descobrem em seu pastor o perigoso lobo devorador. Mas o lobo sabe que um carneiro ou outro não move montanhas e que sempre haverá muitas cabeças em seu rebanho.
Mas o falcão apenas começou o seu majestoso e triunfante vôo. Ainda engatinha o novo Aeon e suas crianças brincam e se encantam com o novo. Os carneiros logo irão pro paraíso (ou pro açougue) e só reinarão os que alcançarem a proeza do vôo. Mas estamos só começando. Ainda veremos por algum tempo o tapete branco de carneiros tolos seguindo lobos de vermelho que servem a grande besta branca. Enquanto isso as crianças brincam e se encantam com o falcão guerreiro que livre voa por cima dos carneiros que marcham para não sei onde.
O deus-falcão traz em si a esperança do pai e da mãe, trazendo o novo e a marca do andrógino, revelando os mistérios da alquimia santa. Os carneiros híbridos seguem para o holocausto, pois já foi o tempo do autoritarismo, da censura e das barbas longas. Hórus traz o novo. Ele mostra a beleza do vôo e a esperança do vasto horizonte. Mas há quem prefira seguir lobos e cheirar o rabo dos outros...


Penumbra


E no calar da noite, quando as aves diurnas estiverem em seus ninhos e a solitária coruja estiver acariciando o vento com suas plumas, eu estarei caminhando em leves passos entre os olhares de uma bela e sombria alameda que me contará a história dos antigos seres.
Nesta noite serei seguido apenas por minha própria sombra, em um sonho consciente em cores frias e distantes. Serei amigo dos nevoeiros e conversarei, silenciosamente, com as flores da noite.
Brincarei com os ventos, me envultarei em seus mantos, me banharei na verdade ocultada por detrás do véu. Serei eu mesmo ao ser sombra. Receberei as armas sábias do Noturno.
Serei visto como espírito errante, alma vagante em busca dos ancestrais dos grandes bosques, da lembrança dos seres que já fui. Ouvirei as palavras no farfalhar das árvores, no piar das aves, no coaxar dos sapos. Serei cúmplice da madrugada, dos seres que habitam as árvores, dos olhos que me acompanham à distância.
Na penumbra encontrarei minha face e alçarei vôo ao lançar-me no abismo de meus sonhos. Serei digno de meu cajado e da companhia dos espíritos dos montes, e proferirei palavras de poder e exaltarei o Grande Nome.
Serão mensageiros os ventos e eles levarão sons, perfumes e encantos, para onde quer que eu direcione.
Quando eu estiver livre, na companhia do frescor da noite, eu pedirei às ninfas o torpor de seus cantos e saciarei minha sede na sagrada fonte que banha as raízes dos velhos carvalhos. Pedirei a permissão das rainhas entronadas em árvores e beberei em sagrada eucaristia o orvalho de suas folhas. E serei grato.
No calar da noite, quando eu estiver no centro de meu mundo, poderei ouvir todos os sons que se movimentam no silêncio, poderei ver todas as formas que se manifestam nas sombras, poderei tocar tudo aquilo sutil e disforme. Contemplarei a lua e sentirei em minha face o seu leve e prateado toque. Ouvirei meus passos, meu respirar, meu sangue, minha história.
E quando a bela coruja vier, anunciando o luto com suas plumas brancas, serei seu confidente e ouvirei seu canto. Escutarei o rasgar do pano, o tilintar de suas tesouras, e não a chamarei de rasga-mortalhas, mas de anunciadora da vida nova e despertadora do sono.
Quando a noite me envolver em seu manto de encanto, estarei atento, serei eu mesmo, ouvirei a todos. Utilizarei as sombras, sendo iniciado nos mistérios dos sonhos, e percorrerei o reino que anuncia a bela aurora a proferir o meu nome.
Serei chamado ao sagrado bosque, onde com a penumbra dançarei em um rito de vida e morte, celebrando a alquimia da suprema força e escrevendo com luz no livro negro da deusa da noite.

Arcano

Como criança encantada por fogo
Louco seguindo por novas vias
Ao se lançar no desconhecido abismo
Ciente das asas de sua vontade
Indo em busca de seu próprio mundo
Se deparando consigo mesmo em encruzilhada
Aprender as leis de baixo e do alto
E assim poder comandar os quatro sagrados
Com astúcia e aguçada habilidade
Para abrir os portais da escura casa
E receber o doce e embriagante beijo
Ao descer as escadas do medo
E ao retornar receber o conforto de quem gera
E ter poder para imperar sobre os homens
Nunca deixando de esquecer o sagrado
Sempre ciente das leis do Alto
Para assim se fazer as escolhas certas
Controlando sua força contida
E direcionando sua vontade para triunfar
Equilibrando negro e branco
Sabendo ser prudente e sábio
Para retirar do silencio as chaves
Para que no girar da roda
De um ciclo findado para o nascer de um novo
Saiba dominar e assim utilizar a força contida
Para ao ser testado não sucumbir na dor
Para ser coroado com uma nova vida
E assim ser conhecedor da grande obra
Sendo conhecedor de si mesmo
Ciente dos seus demônios e anjos
Para que uma nova realidade se crie
E que dos escombros de um homem que foi
Ressurja o brilho de um novo espírito
Conhecedor das leis de cima e de baixo
Sendo senhor da noite e seus encantos
Ciente sob a lua dos mundos distantes
Sendo senhor do dia e sua verdade
Ciente do mundo que criamos
E ao se anunciar um novo tempo
Estar pronto para ser em essência
Microcosmos, síntese do infinito.



Do alto de uma colina


Do alto de uma colina, lá distante, onde os ventos são serenos e constantes. Perdido no horizonte, longe dos humanos desumanos. Tudo tão distante... Eu me vejo ali, diante do tempo, perguntando em silencio o porquê de ser. Longe da via-crúcis do mundo. Longe das bestas mecânicas e do frio das tubulações dos esgotos. Lá, distante... Acompanhado pelos ventos. Lá, onde tem uma pequena casa, o meu refúgio verdadeiro... Onde todos os dias uma árvore frondosa me espera e me fala do espírito. Talvez um cão amigo pra me sorrir e lamber minhas mãos trêmulas. E um retrato dela. E uma saudade, uma espera, a lembrança de um pacto feito há vidas e vidas. E a pulsante lembrança dela que habita o meu coração. O eco dos risos e das conversas... E uma sombra enorme que me encobre e diz que ela está longe... Mas apenas isso... A paz de uma colina alta e deserta. Fria na madrugada, bela no nascente e no poente. Um lugar pra um velho cansado de ser gente. Velho que não tem a mínima vocação pra anacoreta, que precisa daqueles olhos sobre ele. Um lugar pra ouvir o silencio. Pra fugir do riso das hienas dopadas. Pra fugir dos demônios que me perseguem e que nasceram de meu ventre de deus refletido. Um lugar pra ouvir o meu espírito. Distante... Perdido em um nevoeiro, próximo do deus dos ventos. Vento que levará o que tenho aqui dentro. Que me trará o perfume dela, que levará pra ela noticias minhas.
Esse peregrino do universo só quer paz e um alento que seja. Uma caneca de vinho em noite fria, um pedaço de pão feito por ele mesmo. O mundo em câmera lenta... E o crepitar de uma fogueira... E então meu choro não será ouvido, minhas lágrimas não regarão mais as flores de concreto, muito menos os corações de pedra, os olhares de vidro, as mentes cibernéticas, as árvores de ferro... Não mais... Apenas eu e o espelho da natureza... À espera dela...

Microcosmos

Eis que ouço o chamado
Da mata, dos deuses, das árvores
E como momento mágico
Sou lançado para dentro de mim mesmo
E o que era só corpo se torna espaço
Mergulho através do portal que eu sou
E me vejo abismo e céu em esplendor
Vejo seres radiantes de outros planos
Pequenos, grandes, impactantes
Olhos por toda parte me olhando
Árvores bailando, seres as contemplando
Dríades poderosas em seus tronos
Verdes templos captando o cosmos
Portais para o Divino Mistério
E eu, microcosmo...
Habitando e sendo habitado
Contemplo o movimento do Universo
Dentro do meu próprio templo-corpo.

Eu e meus vários rostos

Corredores de espelhos
Eu e meus vários rostos
Quem fui eu?
Quem já não sou?
Serei todos ou serei um outro?
Vejo Deus e seus diversos templos
Escolho um de seus infinitos nomes
Embora aceite todos...
Como espelho multifacetado
Cristal refletindo diversas cores
E me vejo em segundos em minha eternidade
Com espanto e graça
Rindo do paradoxo enigmático
Louco e mago
Um ser de luz e suas máscaras de ego
Onde estão todos?
Onde estou eu senão aqui ou em toda parte?
No tabuleiro cósmico sendo peão e rei
Luz e trevas, carne e alma
Guerras santas, vagas lembranças
À luz do grande sol
Na escuridão do grande ventre
Eu, o não-eu
Filho das estrelas, enviado sagrado
Mensageiro do Cosmos
Todo-parte.


Templo

Eu sou minha própria igreja
E meu coração é um altar para Deus
Meus olhos vigilantes chamas
E de meus lábios a vontade em fluida corrente
Minhas mãos unidas crepuscularmente
São abismos e alturas em único e eterno movimento
Subo os degraus de minha mente
E ascendo em comunhão com os Deuses
Para em seguida mergulhar profundamente
Na água da vida, na fonte do conhecimento
Eu mesmo, oferenda e adorada estrela
Adentrando os portais do Mistério
Em busca do sangue e do fogo violeta
Sendo aninhado novamente em santo ventre
Sendo o caminho, seu fim e começo
Sendo Deus habitando sacrário
Criador, criatura, firmamento
Retornando ao jardim edênico
Existente no interior da Deusa-árvore do conhecimento
E então me perco em mim mesmo
Encontrando o Universo em meu peito
Extasiado nos corredores do meu próprio templo.


O rio das ilusões passageiras

No rio das ilusões passageiras não há chegada, não há saída, não leva ao mar, não leva para outro rio. Este rio é um vício. É um grande círculo infinito.
No rio das ilusões passageiras tudo passa, menos o rio que circula continuamente. Sem fim e sem começo...
Os barcos se acabam, pessoas se afogam, os peixes vão e vem... As pedras vão sendo gastas sem que ninguém perceba, pois este é o rio das ilusões passageiras. Onde tudo passa menos o vicioso rio e sua correnteza.
Navegam anos inteiros sem se darem conta de que o mesmo local de partida se repetiu muitas vezes. Pois tudo muda: as árvores, as pedras, os momentos. Só não muda o circular do rio das ilusões passageiras.


Ao Grande Ser

Ao Grande Ser que me gerou eu peço
Não me deixe seguir por caminhos estéreis
Se não for com o intuito de receber a lição
Por mais que eu me desvie ou pense em cair
Preparai o meu caminho e a chegada certa
Percebendo a importância de cada pedra
Admirando a beleza de cada flor
E nunca me deixe esquecer minhas asas
Não deixe que a frieza abrace meu coração
Antes disso permita que o fogo abrase meu ser
Pois mesmo trilhando estradas de ilusões
Eu sempre serei ciente do amor que gera
Amor que impulsiona a seguir
E este amor não tem muros ou senhores
Mas que eu saiba silenciar na hora certa
Para que assim eu possa falar com o mundo
E assim sendo portar a chave de quem sabe tudo
Que eu ouse, mas que eu esteja pronto para voar
Sempre querendo e buscando o que está além
Por mais que se apresentem correntes
Eu sempre saberei que Deus usa asas
E que eu sou sua imagem e semelhança
O espírito encarnado que nasceu do amor
Viajante cósmico vindo das estrelas
E eis que vim para brilhar e espalhar esta chama
Pois sou templo e não escravo de dogmas
Pois sou alma em consciente livre vôo
E não aceito as gaiolas do mal e as grades da ignorância
Pois não sou máquina fria e desumana
Ou uma besta sedenta de ração
Sou espírito habitando corpo
Centelha em sagrada lâmpada
Ao Grande Ser que eu sou...
Eu sei, eu ouso, eu quero, eu calo.


Impressões do agora (Orai e vigiai)

O tempo a dilacerar sonhos, a massacrar os que o aceitam. Roedores em seus círculos viciosos, a girar no nada. Quando se gira no mesmo lugar apenas se consegue ir para baixo. E ai daqueles que cavam seus próprios buracos, pois se não possuíres a virtude das asas para sempre ficarão aprisionados. E quanto mais girar no mesmo lugar mais fundo se precipitará.
O tempo a voar, cada vez mais incessante, levando à loucura, ao desgaste, ao colapso. E não há saída ao menos àqueles que se adaptarem. Já não há mais sentido no relógio, nosso tempo já não é o mesmo, já não temos vinte e quatro horas. E a humanidade acelerada acorda, trabalha, dorme, acorda, trabalha, dorme, acorda, trabalha... Para onde vão todos? Para onde eles seguem? Filas para o nada. Consumismo, propagandas, nervos à flor da pele, desespero, suicidas, futilidade, assassinos, caos... Caos... Silêncio... O lado negro do novo Aeon. Homens-máquina embalados ao som de martelos e bigornas, incessante tic-tac. Avanços tecnológicos, liberação total, banalização, sociedade maquiada, mundo descartável. Mundo cansado dos parasitas de sua superfície. Por favor, tragam um espelho para que possam enxergar suas almas. Está escuro, mas há luz em seus templos de carne. Para onde vai o tempo com tanta pressa? Creio que o “fim do mundo” está para se dar. O que chamam de “fim dos tempos” não seria o “fim do tempo”? E os que permanecerem nesse louco mundo mecânico, ficarão presos no tempo? Escravos cegos e dopados da 3ª dimensão? A Mãe Terra mostra sinais a todo instante: mudanças climáticas, aquecimento global, tragédias... Mas mesmo assim o homem-máquina continua ferindo este santo corpo. Quantas árvores já não tombaram e quantos prédios já não se ergueram? Alma escravizada na jaula-corpo, gritando por socorro. Mas não ouvem; o barulho do mundo-máquina não permite que ouçam. Mas não ouvem; a voz do ego é muito alta. Estão todos ocupados com suas prisões-casas, com suas escravidões-democráticas e alienadas. Estão todos correndo. Estão todos rindo por nada, como hienas a rir das desgraças. Pandemônio a correr solto. O inferno é o homem quem faz, vitima de seus próprios demônios. Não somos nós os anjos decaídos das escrituras sagradas? E já não habitamos o inferno das máquinas? E o céu da alma? Porque tanta dor maquiada? Buscam tanto uma salvação, um céu surreal, mas não fazem nada! Pensam que Deus se resume a um livro e pensam que orar é algo que se dá da boca para fora. Orar é a linguagem da alma! É a vara que pescará teus peixes no grande mar universal que te habita. Pensam que os lugares mais santos são os templos de concreto. Seus corpos são os verdadeiros templos! Confiam em Deus e maldizem a vida, os seus irmãos. Não sabem eles que a “salvação” está em si mesmo e que nós possuímos todas as chaves? Ah, torturadores de Gaia... Pensam controlar e reinar neste plano... Pobres tolos. Pensam governar o mundo enquanto apenas vivem em sua superfície como piolhos em uma cabeça. E não há quem suporte viver por muito tempo com a cabeça empestada...
Mas existem os que negaram a pseudo-realidade e foram fortes para desbravar suas almas. Existem os que ousaram pular no abismo da sabedoria, pois intimamente sabiam possuir asas. E estamos atentos, mais vivos do que nunca. E já somos muitos. Já somos percebidos, perseguidos e odiados. Eis a grande luta dos textos sagrados, onde hordas infernais lutam contra milícias celestiais, onde matéria luta com espírito. De um lado a matéria com toda a sua dor e ilusão tenta seduzir e espalhar seu câncer e do outro lado a luz do espírito a disseminar o puro amor e a grande verdade.
Não vê o ser humano que toda sua vida é repleta de insatisfação? Não vê que está sempre em busca de algo, de um ungüento para suas dores? Não vê que está sempre em busca de outras pessoas para que assim não se sinta tão perdido? Como dói perceber tantos correndo para lugar algum. Corredores em uma esteira sem descanso. Não percebem que se deve mesmo é correr para dentro de si mesmos? Não percebem que não é o externo apenas um vago reflexo de toda beleza interna? Não se percebem? Rumarão anestesiados à gargalhadas para o poço do esquecimento e aniquilação? Não se nós, os despertos, guardiões da chama sagrada, deixarmos. Estamos dispostos, cada qual ao seu posto. E não permitiremos que o mal se propague ainda mais. Pois nenhuma máquina se assemelha a nossas asas, nenhum caminho se assemelha à nossa senda sagrada. Estamos vivos e vigilantes. Estamos por toda a parte, onde menos imaginarem, como faróis, como candeeiros a levar contagiante claridade. Cumprindo nossa missão do Alto, mensageiros das estrelas, protetores de Gaia.


Labirinto de espelhos


O que você vê além de você mesmo?
O que seu espírito reflete?
Palhaço, ilusionista, marionete...
O que você vê refletido no espelho?
Um sábio, uma farsa, um inocente...
Qual o arquétipo?
O que você sente?
Repulsa, encanto, medo?
O que há aí dentro?
Um estranho ou você mesmo?
O labirinto te enlouquece?
Quebre então os espelhos...
E se mire nos olhares envolventes...
Se perceba no que vês à frente.
Então descubra que Deus é o espelho...
E que você é o espelho Dele.


Anjos caídos


Barro molhado de suor e lágrimas. A morte que dança em seu espetáculo. Na ampulheta o sangue escorre. O sangue de todas as nações. Todas sem noção... Homem selado que vira cavalo, que puxa carroça, que não tem nem direito a pasto. Pessoas que só sabem olhar para os argueiros nos olhos das outras pessoas. Falando mal, invejando e odiando. Esquecem que seus rostos são espelhos.
O ódio esmurrando uma parede, lutando corpo a corpo com o fogo. Lançando venenos químicos nos rios para beber sua água em seguida. Há muito que o ar deixou de ser puro. Mas continuam matando o mundo. Esquecem que nós é que somos o tudo. Bola de borracha contra o muro.
Miséria, fome, vergonha... De quem são os filhos? Da boca pra fora são todos irmãos... Lamentável velho mundo novo... A era da informação e da globalização. Guerras longas e violentas. Meninos morrendo sem ao menos saberem direito porque e por quem... Armas químicas e ogivas nucleares suicidas. E há ainda a guerra da fome, do preconceito e da diferença. Um teatro macabro e ridículo, onde os atores são vítimas e assassinos. Nós não precisamos de nada disto...
Se a água do mar fosse doce e cristalina o homem colocaria marca e venderia. Filhos ingratos desta mãe gentil. Que só maltratam, só agridem. Imaginam um inferno em chamas e um diabo com chifres... O inferno é você mesmo quem faz, arquiteto do destino e do carma. Os anjos caídos são vocês mesmos. Humanidade... Como é que vocês querem voltar? Quem tem chifres e rabo é boi e vaca. O diabo é a ilusão que cega e fascina, é o mal nosso de cada dia, é a ganância, a ignorância, a hipocrisia. Colocando irmão contra irmão. Pai que mata o próprio filho. Anjos caídos que deixaram o paraíso. Repetem a vergonha de Babel... Só poderá existir uma língua! E esta língua se chama amor... Enquanto não houver tal coisa Deus derrubará a torre, o inferno continuará existindo dentro de suas próprias casas, nos espelhos de seus banheiros e você continuará sendo um anjo caído... Ciclo após ciclo... Pois o mundo somos todos nós. Microcosmos, reflexos do infinito. Maníacos suicidas...



Cicatrizes talhadas



Um espelho quebrado me mostra várias faces, como cicatrizes na alma que chora calada, que grita por dentro.
É tarde e o sono não quer cerrar minhas pálpebras, embora eu saiba que só é tarde para quem aceita as horas.
Eros se debate, amordaçado pela confusa mente de si próprio, sendo acusado pela lembrança das vítimas de suas flechas, entregando-se ao remorso que se arrasta desde os primórdios.
O que há comigo? O que vem a ser esta guerra de espíritos, onde esquerdo e direito se devoram ao invés de se ajudarem?
Lástima! Tudo é cinza e somente ouço os gritos. Gritos que são gládios... E minha velha armadura já está gasta. O anjo negro anuncia com sua trombeta de ossos que é hora de ceifar o trigo. Há que romper a terra para ver o verde da nova vida. Há que ferir para vingar. E a vida é rígida com seus filhos, pois estes precisam voar. Voar! Voar... Ou aprendemos ou caímos.
Este é um lamento, um grito que ecoa dentro de mim. Mas todos são surdos, exceto para si mesmos.
Eu vi Deus e Ele tinha o meu rosto. O que fazer se a verdade se apresenta refletindo? O que fazer ao se constatar que tudo é relativo? As horas passam, mas eu continuo firme. As estradas não seguem para lugar algum, nós é que seguimos. E existe um mundo dentro de mim que a meu ver apenas eu posso seguir, apenas um Deus pode existir. Apenas um Deus... Mesmo sabendo que este possui infinitos nomes e rostos, crenças e raças. Assim como eu e tudo o que existe...
Não vejo sentido, procuro abrigo. Vejo rostos tristes por detrás de máscaras felizes. Vejo derrotas por detrás de vitórias. Vejo vergonha por detrás das glórias. Vejo e me vejo tentado a fazer algo. Fazer o quê? Chorar calado, rir gritando?
Este é um livro de lamentos. Escrito com lágrimas de mentira e de verdade. Aqui está a verdade das crianças que nascem caladas. Aqui estão as lágrimas de despedidas e partos. Aqui está o sangue que circula nas veias e que adentra o solo. Aqui está a vida do espírito e a morte da alma (que como fênix sempre renasce).
Conhecemos uma serpente quando pisamos nela. Só damos valor à flor quando a machucamos. A serpente nos dá o pavor, a lição e a queda. A flor nos dá a lembrança e o perfume derradeiro. Mas a flor deixa sementes... E a serpente, descendentes. Mas ambas deixam profundas marcas, no calcanhar e na alma.
Este é um livro de marcas, de cicatrizes talhadas no papel que se torna carne. São apenas retalhos, sombras imperfeitas do que realmente quis dizer minha alma, pois Deus nunca será o mesmo para todos, nunca terá a mesma linguagem. Nunca... E o que para mim é lamento, para você pode muito bem ser cômico.
Vamos em frente. A música não pode parar neste baile de máscaras. Deus nos assiste em um eterno espelho multifacetado só que apenas consegue ver o seu próprio rosto.










Buscador do Absurdo

Buscando respostas do mundo
Parti em busca sagrada
Um espelho diante da alma
Bebendo do sangue da mata
Me vi ego dissolvido no espaço
Eu mesmo, futuro, presente e passado
Cristal me mostrando mil faces
Perdido em mim mesmo:
Encontrar-me
Livre das amarras da identidade
Tornei-me o Tudo e o Nada
Em uma viagem Cósmica, velada
Perceber minha essência sagrada.


Homens-pássaros

Eu, como falcão, a observar a terra dos homens-terra, livre de todo o mal causado pelos disseminadores do caos. Como são pequenos os problemas vistos cá do alto. Como e por tantas vidas pudemos dar tanta importância às coisas pequenas e rastejantes. Nesses anos de aprendizado, da luta pra conseguir minhas asas, vi que se dermos importância demais a algum problema este pode nos devorar, nos tornar ínfimas criaturas. Sendo assim tratei logo de torná-los pequenos, para assim eu ser o senhor e destruir-lhes — ao invés do contrário.
Daqui do alto tudo se torna tão simples, tão fácil de ser compreendido. Embora ainda seja complexo poder pensar como tantos podem rastejar e não fazer nada para sair de tal estado. Eles não vêem que vôo? Nem ao menos percebem o projetar de minha sombra? A lama deve atrapalhar a visão deles... Mas não posso ser tão fatalista assim — muitos me percebem e assim sendo se torna útil meu legado de homem-pássaro. Mesmo que muitos dos que enxergam queiram cortar minhas asas. Mas muitos se encantam e já começam a perceberem suas costas as atrofiadas asas. Enquanto isso fico aqui a esperar o despertar. Enquanto isso fico a observar os porcos na lama, as ovelhas seguido para não sei onde e o gado rumando para o abatedouro. Mas me consola um pouco saber que tudo tem sua importância no grande tabuleiro cósmico de peças negras e brancas. Mas me consola mais ainda saber que tudo é transformação constante e que é incessante o girar da roda da vida.
Eis que o Deus-falcão anuncia a nova aurora e com seu grito tenta despertar os homens-terra para a realidade dos homens-pássaros. E já não são poucos os que realizam a proeza do vôo. Mesmo sabendo que muitos querem ir muito mais longe do que suas novas asas suportam e acabam se lançando mais profundamente no solo da ignorância. Mesmo sabendo que muitos terão as asas cortadas e se deixarão pó fraqueza serem condicionados à natureza de ruminantes. Mesmo sabendo que muitos por precipitação acabarão abatidos ou encarcerados. As asas exigem antes de tudo responsabilidades, exigem prudência, força e coragem. Não basta querê-las, não basta ter-las, não basta utilizá-las. Tem que se ter o espírito de pássaro... Tem que se ter a natureza da liberdade... É preciso voar... Voar... Voar...



Relatos de um espírito “encarnado” (apenas uma página de qualquer diário...)


A casa do meu pai tem muitas moradas, portas para muitos quartos, diversas saídas e entradas. Saídas que podem ser entradas e entradas que podem ser saídas.
A casa do meu pai não tem espaço limitado, tem lugar para todos, embora todos pensem que só há lugar para seus semelhantes. É pena que esqueçam que Deus é semelhante a todos, sejam negros ou brancos, sejam fulanos ou cicranos, sejam prostitutas ou santas. Desculpem-me, mas não sou hipócrita (graças a Deus...).
Deus escreve certo por linhas tortas, mas quem disse que linhas tortas não são certas? E quem disse que Ele precisa de linhas para escrever? O papel pautado fica sem sentido quando se escreve perfeitamente sobre o papel branco. E o que é escrever perfeitamente? Conceitos e mais conceitos... Deveríamos tentar nos conhecer ao invés de tentar rotular o que não tem limites, só assim se conheceria a divindade. Tentativas e mais tentativas, rótulos e mais rótulos, teorias e mais teorias... Bobagens humanas... Mas sou humano, então... Estou entre o céu e a terra, portanto, não me rotulem, não me limitem, não encham meu saco. Não sou nenhuma espécie de anjo e também não sou nenhuma máquina. Sou o que sou.
E continuam enchendo o meu saco... Mas não carrego peso inútil, o que não presta eu jogo fora. O que não presta “para mim”, deixo bem claro, pois o que para mim causa náusea para outro pode ser manjar. Bobagens... Um grande saco repleto de nada, de coisas inúteis (para mim, deixo bem claro).
Na realidade não preciso de saco algum, pois o que é de verdade para mim eu vou guardando no santuário do meu coração. O saco eu deixo para as bobagens humanas. E, diga-se de passagem, que sou humano e também tenho direito de usufruir de minhas bobagens. Também quero saborear meu sorvete de ilusões, meu churrasco fictício, minha macarronada imaginária. Não quero deixar o mundo dos terráqueos, pois senão teria vindo como espírito. Preciso comer, dormir, beber, vestir, falar... Pois vivo dentro de uma máquina biológica composta de ossos e carne. Sou fogo encerrado em uma lâmpada necessária para o clareamento do caminho de muitos. Sou deus habitando em um templo de carne. Sou amor depositado em um milagroso sacrário. Esta máquina necessita de orações, de luzes, de cuidados. Esta casa necessita de vozes, de pessoas, de um ser amado. A solidão faz com que enveredemos em um labirinto frio e desalmado. Precisamos que alguém entre munido de um candeeiro onde brilhe a chama do amor para guiar-nos ao lugar certo.
O amor é a melhor das chamas. Guia-nos em noites escuras, nos aquece em tempo frio, nos ilumina no desespero, faz refletir para que possamos ver a nossa alma de deuses. Liberta-nos de prisões de incertezas, nos mostra a saída do labirinto do medo, nos salva dos abismos da descrença, nos guarda das armadilhas da ignorância. O amor é o que torna ainda possível sonhar, pois sem sonhos afundamos na lama da inexistência. É o que impulsiona um coração a outro, como partes da mesma verdade. É o que dá sentido à vida. É o que torna belo, vital e inesquecível o brilho nos olhares, os gemidos acalorados, o prazer de degustar o néctar da troca de salivas. Sem ele a vida não seria vida, seria máquina, seria fria, seria triste... Apenas um palco desalmado.


Divino Êxtase

Ó, luminoso ser, bela face suprema
Adorada estrela
Das mais altas esferas e profundezas
Fluxo eterno, movimento
Contemplo tua face
E me banho no esplendor de tua beleza
Exalto tua glória, cantando teu nome potente
Tu que és metamorfose, morte, vida
Alucinante mariposa
Resposta, enigma, paradoxo
Ascendo à tua presença
E percebo maravilhado a tua grandeza
Delírio extasiante, paradisíaco refúgio
Abismo, espelho, templo
Arcanjo de luz, divina potência
Sagrado mistério, guardião dos segredos
Príncipe terreno e imperador celeste
A mais bela obra, tudo o que nos rodeia
Mágico agente, radiante estrela
Manifestação onipresente
Esplendor do Amor Divino, firmamento
Luz manifesta, sublime semente
Materialização do sonho de Deus
Dou graças ao banhar-me em teu seio
Melodiosa e sedutora presença (Eu Sou)
Comungar contigo é mergulhar em mar eterno
É encontrar a si mesmo
É relembrar o inicio, é se ver mais a frente
É rasgar o ego e o tempo
É se perceber um micro-infinito
É morrer para viver eternamente...

Religare (Gota-Oceano)

“Eu vi Deus e ele tinha o meu rosto. Vi refletido em mim pessoas, mundos e coisas. Percebi além de minhas entranhas um infinito Universo de luzes e sombras. Vi-me ego dissolvido no espaço, perdido no encontrar-me, passando por minha mente como máscaras do que realmente Eu Sou. Senti-me gota espalhada em oceano. Sendo Deus o vasto mar e eu uma de suas gotas. Paradoxo Divino extasiante. Enquanto ser (humano), cápsula d’água, invólucro de ego onde habita meu Divino Nome. Sem a cápsula, quem sou diante do Deus-Oceano?”
Desde seu surgimento o homem tem consciência de sua parcela divina, do desconhecido além dos seus templos de carne. E desde então ele vem buscando conhecer esse mistério, que de tão íntimo se tornou distante. “Conhece-te a ti mesmo que conhecereis os Deuses e os homens”, a célebre frase-chave do Oráculo de Delfos que encerra o mistério do grande Arcano. Buddha declarou que a Verdade está junto de nós. Cristo mandou conhecer a Verdade e que assim sendo esta nos libertaria. Já Krishna afirmou que a verdadeira religião é a união da alma individual com Deus, o Espírito Universal. Muitos mestres apontaram para o mesmo caminho, e o ser humano, com mania de procurar fora o que se encontra dentro, acabou se perdendo... Porém, sempre buscando encontrar o sentido para o que sentia lá dentro, em algum lugar obscuro do seu pequeno-grande-mundo, microcosmos, reflexos do Absoluto. A esta busca foi dado o nome de “religião”, “religare”, ou seja, a busca por “religar” seres espirituais que somos ao Grande Espírito Criador. Mas com o tempo a “criatura” foi esquecendo qual o real sentido da busca, e ao invés de “unificar” Deus e criatura, tornou Deus cada vez mais inacessível e distante, limitando o Ilimitado às Alturas... A gota em busca do mar sem se dar conta de que o mar está em tudo—e ai está o sentido de “Único”, muito diferente de “exclusivo”... Mas vez por outra há um “despertar” e então a sagrada luz existente no sacrário do ser é percebida. E como em um passe de mágica tudo passa novamente a ser único e o ser se vê em conexão direta com ele mesmo, com o Deus-gota-Oceano, com a Força criadora Absoluta.
Religare...

Vivos eternamente

Estamos vivos! E já se anuncia o circulo de cores.
Sim, o que foi plantado será colhido com farra e riqueza abundante.
Pois cada pedra está em seu lugar, núcleo e pilar.
Despertos ou adormecidos, cada qual à sua hora.
Daqui operaremos com nosso melhor, não nos deixando abater
Por nada ou coisa alguma!
Pois as novas folhas já refletem o brilho paterno do sol
E os caminhos se oferecem ávidos por seus filhos
Eis o momento de colheita e festa. Celebremos!
E estaremos atentos aos cobradores e mercenários do umbral!
Com o poder que nos foi concebido outrora e que ativado e resgatado está
E que assim esteja escrito das mais altas esferas até as mais profundas
Assinado com o sangue verde
Das Senhoras entronadas em árvores seculares
E que assim se faça pelo poder dos quatro sagrados portais
E que seja ouvido entre os demônios e anjos celestiais
Para que se cumpra o projeto do Alto
E que ninguém ou coisa alguma mal intencionada
Possa interferir sem receber de volta suas sementes
Três vezes mais!
Com a benção da Deusa e do Deus!
Em honra à Suprema Força Criadora!
Vivos eternamente! Como grande circulo de árvores imortais.
E assim honraremos o que nos foi destinado...
Onde quer que estejamos... Cada qual com sua parte...
Amem


“Deus “

Tudo existe a partir de você. Todas as portas estão em você. Se o que chamam de Deus é o Todo você então é parte deste Todo e assim sendo, se torna Deus. E sendo Deus o Todo não seria nem bom nem mal exclusivamente. É ponto de equilíbrio entre todas as coisas—o principio da Unidade (entendam que quando o mago Jesus disse ser o filho “único”, se referia a essa verdade, longe de querer dizer que era o único e exclusivo filho de Deus).
E onde está o demônio nessa história? Em Deus? Bom, sendo Deus todas as coisas... Mas não quero ser repetitivo... Entenderam onde quero chegar? Viram que não é tão simples assim pensar no Absoluto? Grande paradoxo. Quem criou todas as coisas? Se sua resposta for “Deus” então eu pergunto: e quem criou Deus? Viu a complexidade da questão? É por isso que costumo dizer que temos um cabresto, um sagrado freio, que nos impede de seguir adiante na busca do grande segredo do espírito.
Bom, mas prossigamos... O Universo surgiu de uma explosão? Bom, entendo, mas o que mesmo explodiu? Então se conclui que já existia algo para ter explodido. E para esse algo existir necessariamente ocupava um lugar em algum espaço. Percebeu o quebra-cabeça? Se algo explodiu é porque esse algo já existia... Querem prosseguir e enlouquecer ou entregam os pontos? Torna-se engraçado, principalmente quando tantos tentam colocar suas teorias sobre a origem de Deus, do Universo. Eis o peso do conhecimento...
A questão é muito simples: como seres criados é da nossa natureza não conseguirmos conceber algo que não foi criado jamais. Sempre paramos como que impedidos por uma grande parede invisível. Como criaturas finitas poderiam entender o infinito? E assim sabendo ainda existe quem rotula Deus, quem brigue por sua exclusiva verdade. Quem crê mais e quem crê menos? Guerras santas maquinadas pelo deus-ego. Qual a cor do seu Deus? Branco, preto, vermelho, azul, amarelo? A capa de todo livro tido como santo deveria ser um espelho. E quem tiver olhos que veja! Deus é macho ou Deus é fêmea? É Deus ou Deusa? Ou nada disso? Ou tudo isso? Deus é luz? Mas o que seria da luz sem as trevas? Deus é trevas? Mas o que seria das trevas sem a luz? Pois é... Deixo-lhes dúvidas e mais dúvidas, pois delas surgirão discernimento (ou não). E não me venham dizer com caras e bocas de uma caricata santidade que eu estou aqui para confundir. Partindo desse princípio vejo como é infantil a idéia da briguinha cósmico-masoquista entre Deus e o Diabo—se na totalidade são faces da mesma moeda.
Esqueçam os dogmas por um tempo e reflitam um pouco nesse instante. Esqueçam tudo que lhe ensinaram/programaram. Outra questão: se você é imagem e semelhança de Deus, porque então aceitar e se chamar de impuro, vergonhoso ou pecador? Será que a imagem e semelhança d’Ele são impuras e feias? O sexo é pecado? Tem algo errado nessa programação. Como já disse Crowley “pecado é palavra de restrição”. Não esqueça: “Vós sois Deuses!” E existe um Universo de possibilidades dentro e fora de você. Você é seu próprio mundo, sua própria igreja. Qual estrada percorrer se todas dão no mesmo lugar? E assim sendo é tudo tão belo e complexo... Deus tem várias faces, sim, e porque então limitar o Ilimitado à determinada religião ou seita? Se cada pessoa é um mundo, cada pessoa possui uma lei própria. Assim sendo cada pessoa tem seu próprio Deus e sua própria forma de senti-lo. O meu Deus é melhor que o seu? É mais infinito que o seu? Mais cheiroso? Qual o seu conceito de Deus? Personificar Deus? Só a partir de você. Limitar o imensurável a uma caricatura carnal e fadada à morte? Bom, Deus é constante movimento, assim sendo também transformação. Vida e morte em sagrada dança. Eu diria que deus é um espelho multifacetado que reflete a verdade de cada ser, só que o próprio Deus só consegue ver o seu rosto. O rosto do Todo. Antes de procurarem saber de Deus deveriam procurar conhecer a si mesmos, pois só assim chegariam ao sagrado e assim sendo ao Absoluto. Não esqueçam que Deus existe a partir de você. Conhecendo o mundo que és terás acesso a todos os outros... Agora eu volto à pergunta: Qual a cor do seu Deus?...


O Chamado

Eis o grande chamado. Almas despertem! Eis que é chegada a hora. Mortos emergem de seus túmulos-corpos e ao reacender a sagrada chama seus sepulcros se tornam templos. Não venho oferecer verdades absolutas acorrentadas em dogmas ou ditar regras, empurrando livros santos como se fossem manuais práticos de sobrevivência. Não venho desrespeitar a individualidade de ninguém, mas sim falar sobre o Universo em potencial existente em cada ser humano. Aqui não há mentira. Aqui não há hipocrisia. Aqui não há templos de engano cheirando a flores mortas. Aqui apenas há o espaço para todo livre pensador, consciente de sua parcela como co-criador, como radiante estrela de leis próprias. Eis a temida e desejada fonte das maravilhas, acessível a todo aquele que possuir sede. Mas cuidado, pois o espelho de suas águas pode fulminar os despreparados antes mesmo do primeiro gole. Aqui não há lugar para os fracos e suas tolices. Não há espaço para os seres programados e masoquistas inconscientes, embriagados na ilusão da pseudo-realidade. Aqui não há a necessidade de se arrebanhar ovelhas para um grande banquete paradisíaco (ou abatedouro maquiado). Não queremos guiar ovelhas. Antes tentamos resgatar leões que foram condicionados a uma vã existência de berros e ruminação. Não queremos correntes de ignorância, pois os horizontes se apresentam repletos de possibilidades. Queremos que os verdadeiros homens-pássaros possam voar livremente no liberto céu da verdadeira vontade.
Convidamos você para uma viagem dentro de si mesmo, para um corajoso mergulho nas profundezas de sua essência. Com o maravilhoso risco de encarar todas as facetas de seu ego ou de se tornar uno com o Grande Enigma Criador. Aqui não há lugar para escravos. Malditos os filhos da mentira! Sepulcros caiados, mortos maquiados. E deixamos claro que a maquiagem pode enganar os olhos, o perfume pode enganar o nariz, mas nunca a verdadeira alma desperta. Por isso atentai! Vigiai vossos templos, ornem seus verdadeiros lares humanos. E saibam que a partir de você tudo pode ser alcançado, pois tudo é interligado cosmicamente! Conecte-se com essa grande força existente em você e no Todo e realize milagres. Isso se chama orar. Comande suas legiões e os elementos sagrados. Impere sua vontade pura, com o amor que impulsiona astros, pois os reis serão lembrados e exaltados. E atentem para uma coisa: há muita diferença entre humildade e humilhação. Peça a seu Mestre Interno e impere no externo, pois sois filhos dos Deuses e não pecadores como tanto ensinaram/programaram.
Que túmulos tremam, mortalhas se rasguem, templos de engano venham a ruir! Pois só há um templo que é teu corpo, o magnífico sacrário que acolhe Deus. Eis que é chegado o tempo e se anuncia aos quatro cantos o novo tempo! Ovelhas cegas se encaminham para um abismo disfarçado de céu e aqueles que não possuírem asas terão como fim o aniquilamento. Mas há esperança... Pois se anuncia o tempo e já pode ser visto no céu os homens alados. E dessa vez as tesouras da iniqüidade não alcançam suas asas douradas.



















Carta a um Iniciado


Contempla! É tua verdadeira face que vos apresento, ofertando as chaves do autoconhecimento. Não te darei um livro, mas sim um espelho. Mostrarei Deus e não um personagem criado. Revelarei o santo Graal existente no mais profundo de seu ser, acessível, pela porta de um simples pensamento. Opera tua vontade e esqueça todo o lixo que vens trazendo acumulado por anos. O envenenamento que provém do berço pode ser curado para sempre. Basta um mergulho, para dentro de si mesmo, e sobreviver ao abismo que desconhecias haver tão perto. Exorcizar a si mesmo, banir os monstros que alimentaste uma vida inteira com a tua própria essência.
Mas como distinguir os anjos das serpentes? Eis que te mostro o mundo e desconheces a si mesmo? Não sucumba no erro do não ser você mesmo. Quantas máscaras sobrepostas impedem tua vista e quantas camadas possuem a tua couraça? Quem és? Qual o teu verdadeiro nome? Não te entrego um dogma, porém um espelho e uma viagem sem volta para dentro de si mesmo. Lá encontrarás os deuses, cada qual presente em suas cósmicas células. Lá estarás frente a frente com o fim e o começo. Verás infernos e céus, ninfas de pura luz e criaturas horrendas. Verás um corredor de infinitas portas em sua mente. Chaves terás, mas terás também de enfrentar labirintos e confusas tormentas. Cada porta mostrará um mundo, cada qual com corredores e portas diferentes. Perceberás tudo isso com espanto e serenidade. Ver-se-á como o tudo e, no entanto sem o ser. Terás acesso a tudo, embora tudo esteja dentro e ao mesmo tempo fora de você. Terás que operar tua vontade verdadeira e não temer nada a não ser a si mesmo. Saber que muitos foram e jamais voltaram presos em alguma porta de seus inconscientes. Saber que muitos hoje são escravos por desconhecerem o real querer. Lidar com paradoxos pode levar à glória eterna ou fadar à loucura e ao sofrimento. Verás que muito perderá o sentido, embora por isso mesmo qualquer coisa, por menor que seja, estará repleta dele. Comandarás os ventos de tua mente, assim como administrarás o fogo de tuas idéias. Criarás mundos e terás respeito, mas também destruirás mundos e serás odiado na terra dos cegos e paraplégicos do espírito. Encontrarás tesouros ocultos e serás capaz de encantar qualquer ser vivente. Falarás com árvores e sentirás o poder existente em uma pedra. Saberás que palavras têm poder e pagarás altos preços enquanto de sua língua não fores mestre. Abrirás qualquer porta com o teu verbo de vontade ou se acorrentarás por longo tempo. Serás senhor de si mesmo e por isso mesmo tantos reinos só o serão se assim quiserdes. Verás reis em mendigos e porcos em reis. Penetrarás nos olhos, corações e mentes, e não haverá mentira que não seja descoberta. Serás um deus, mas não o que chamam de Deus. Perceberás erros tão imensos prevalecendo e verdades tão claras despercebidas à sarjeta. Verás lobos em cordeiros e serpentes que são dragões guardiões do sagrado conhecimento. Ao se acenderem as velas de teus centros energéticos te perceberás como templo, sacrário do Universo. Encontrarás a pedra filosofal encerrada no negror de teu ser e assim sendo terás o tão buscado elixir dos alquimistas. Ouro será o que tocardes, porém saberás que ouro também chumbo pode tornar-se. O poder é seu e cabe a você mesmo usá-lo...
Sabendo de tudo isso, passarás muito mais tempo a refletir sobre a mínima decisão a ser tomada. Não julgarás a mais ninguém senão a si mesmo. E verás a divindade latente em cada ser, mesmo que encoberta. Guiarás a muitos, sim, assim como fostes e és guiado. E dirás a todos que possuírem ouvidos que todos são universos em potencial, cada qual com sua própria Lei. Mostrarás o verdadeiro mestre, por mais que muitos teimem em buscar os outros mestres. Pedirão milagres e curas e perguntarão sobre futuro, presente e passado. E por mais que digas que as respostas eles mesmos possuem, não darão ouvidos, pois só os podem dar quem os possui. Jogarão a primeira, a segunda e a terceira pedra, mas com as pedras construirás pontes, estradas e castelos. Mostrarás o mesmo espelho que te mostrei, e se assustarão e te culparão por mostrar-lhes bestas horrendas, ou perceberão Deus em seus corpos-templos; mas mesmo assim continuarás firme em tua senda, pois saberás que não há preço por tamanha riqueza e que não há volta quando o caminho seguido é você mesmo. Carregarás o espelho, encantando e apavorando quem olhar dentro dele. Serás um mago, guardião de segredos, conhecedor do astral, transmutador de egos e portarás a luz dos mistérios. Atravessarás mundos, equilibrando luz e trevas. O sagrado será seu legado e serás rei tanto na terra como nos céus, pois compreenderás que ambos se refletem. Contempla...


Portadores da Luz

Nobres saudações a todo aquele que busca a sua Verdade! Bendito todo aquele que percebe além das fronteiras desta dimensão e que glorifica Deus em seus templos de carne. Que estas páginas possam levar o necessário para suas almas e que de alguma forma sejam luz para as trevas da ignorância e bálsamo para as feridas causadas pela máquina da pseudo-realidade. Que o espelho destas páginas possa refletir a luz de seus verdadeiros “eus” e que ao mostrar essa verdade que todas as máscaras do engano caiam. Que estas páginas sejam abismos profundos para os tolos que desconhecem a si mesmos e um majestoso e convidativo céu para os portadores das asas da liberta sapiência. Que possam se abrir as portas do Reino Interno — o tão aclamado “Reino dos Céus”— para todo aquele capaz de utilizar as chaves aqui contidas, de forma livre, laica, universal. E que o verdadeiro Amor — a sacra força que impulsiona o ser à luz, assim como o sol que impulsiona os planetas à sua volta — esteja com todos. Que a chama divina transmutadora existente em cada um brilhe em toda a sua intensidade, espalhando a vibração que emitimos dos sacrários de nossos corações neste importante momento.
E saibam de algo: o nosso propósito é difundir espalhar a sabedoria a todos. E que esta sagrada semente, nutrida com o amor que preenche todas as coisas, surja do mais íntimo e profundo recanto de seus seres. Que esta sabedoria seja como um ácido a corroer as correntes da ignorância que limitam a alma a uma existência medíocre em programas que levam homens a girar no nada como se fossem camundongos em uma gaiola disfarçada. Que seja como etérea semente a perfurar o concreto de toda a superficialidade vigente para crescer imperiosa árvore, muito além de nossos arranha-céus de ilusões. Que esta sabedoria seja como câncer a se espalhar por todas as direções e a matar toda a falsidade. E que caiam por terra todas as mentiras que corromperam o sagrado e que foram aceitas como leis absolutas de um reinado hipócrita, alienante e caricata.
Há muito que os verdadeiros portadores da Luz foram renegados e que a palavra de conhecimento era motivo de morte. Mas nós que compreendemos o mistério da Árvore da Vida e morremos para a vida fútil dos que dormem na ignorância estamos mais vivos e operantes que nunca. Do anátema recebido nos fortalecemos, saindo das cavernas dogmáticas exclusivistas para comungarmos com o grande céu dos homens alados, portadores da Luz da sabedoria. Que esta sabedoria então seja a chama a reacender as velas dos templos existentes em cada “Ser” humano.
Então, que a Grande Força Criadora guie a todos em todo seu esplendor e plenitude. E que brilhe intensamente a Bela Estrela...


Introdução

Do alto de minha colina sagrada, onde comungo da presença dos ventos, saúdo o grande deus solar em seu espetáculo crepuscular, enquanto imperiosa nasce por entre os distantes montes a deusa de prata em toda sua majestade. Nesse momento alquímico de imperiosa força, quando sol e lua se entreolham em equilíbrio sacrossanto, me vejo impelido da tentativa de traduzir com minha alma as impressões desta Grande Obra.
Eis que do alto do meu reino interno, refúgio do mago que me tornei, onde minha verdadeira face se faz desnuda, fiz um pacto com os imperadores ocultos deste iluminado projeto. Pacto este o de Sr porta-voz do além-carne, sendo canal mágico, tradutor dos senhores ocultos, mensageiro sagrado.
Honrado eu fui ao ser chamado ao Circulo Iniciático e lá dar provas de minha força e caráter, me tornando um dos pilares do projeto das belas senhoras entronadas em árvores. Nos pés da dama de longos cabelos de folhas prestei meu juramento e apresentei minhas armas, para que assim se cumprisse os desígnios do Alto. Consagrado e apresentado fui aos quatro sagrados, senhores do mundo e guardiões dos cantos do mundo, e lá recebi as chaves da grande base. Bebi do sangue verde, da essência da mata, do elixir das fadas, e a mim foi confiada uma das doze pedras do circulo de árvores. Carrego, pois em meu sacrário a luz da negra pedra, coroa dos sábios, aquela que vê o que não foi revelado, essência velada. Um manto negro riscado de estrelas que cobre meu ser, livrando-me do frio e protegendo minha alma.
Desde então venho a semear a minha luz no solo fértil dos que enxergam com a alma, traduzindo o que encontro em minhas andanças além, sendo farol para os que possuem os olhos da verdade e proclamando meu verbo aos que conseguem ouvir além dos ruídos da ignorância.
Eis que cá do alto venho registrando minhas memórias, buscando palavras que expressem um pouco de minha vivencia entre os muitos mundos que percorro.

Seguidores