Do alto de uma colina


Do alto de uma colina, lá distante, onde os ventos são serenos e constantes. Perdido no horizonte, longe dos humanos desumanos. Tudo tão distante... Eu me vejo ali, diante do tempo, perguntando em silencio o porquê de ser. Longe da via-crúcis do mundo. Longe das bestas mecânicas e do frio das tubulações dos esgotos. Lá, distante... Acompanhado pelos ventos. Lá, onde tem uma pequena casa, o meu refúgio verdadeiro... Onde todos os dias uma árvore frondosa me espera e me fala do espírito. Talvez um cão amigo pra me sorrir e lamber minhas mãos trêmulas. E um retrato dela. E uma saudade, uma espera, a lembrança de um pacto feito há vidas e vidas. E a pulsante lembrança dela que habita o meu coração. O eco dos risos e das conversas... E uma sombra enorme que me encobre e diz que ela está longe... Mas apenas isso... A paz de uma colina alta e deserta. Fria na madrugada, bela no nascente e no poente. Um lugar pra um velho cansado de ser gente. Velho que não tem a mínima vocação pra anacoreta, que precisa daqueles olhos sobre ele. Um lugar pra ouvir o silencio. Pra fugir do riso das hienas dopadas. Pra fugir dos demônios que me perseguem e que nasceram de meu ventre de deus refletido. Um lugar pra ouvir o meu espírito. Distante... Perdido em um nevoeiro, próximo do deus dos ventos. Vento que levará o que tenho aqui dentro. Que me trará o perfume dela, que levará pra ela noticias minhas.
Esse peregrino do universo só quer paz e um alento que seja. Uma caneca de vinho em noite fria, um pedaço de pão feito por ele mesmo. O mundo em câmera lenta... E o crepitar de uma fogueira... E então meu choro não será ouvido, minhas lágrimas não regarão mais as flores de concreto, muito menos os corações de pedra, os olhares de vidro, as mentes cibernéticas, as árvores de ferro... Não mais... Apenas eu e o espelho da natureza... À espera dela...

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