Penumbra


E no calar da noite, quando as aves diurnas estiverem em seus ninhos e a solitária coruja estiver acariciando o vento com suas plumas, eu estarei caminhando em leves passos entre os olhares de uma bela e sombria alameda que me contará a história dos antigos seres.
Nesta noite serei seguido apenas por minha própria sombra, em um sonho consciente em cores frias e distantes. Serei amigo dos nevoeiros e conversarei, silenciosamente, com as flores da noite.
Brincarei com os ventos, me envultarei em seus mantos, me banharei na verdade ocultada por detrás do véu. Serei eu mesmo ao ser sombra. Receberei as armas sábias do Noturno.
Serei visto como espírito errante, alma vagante em busca dos ancestrais dos grandes bosques, da lembrança dos seres que já fui. Ouvirei as palavras no farfalhar das árvores, no piar das aves, no coaxar dos sapos. Serei cúmplice da madrugada, dos seres que habitam as árvores, dos olhos que me acompanham à distância.
Na penumbra encontrarei minha face e alçarei vôo ao lançar-me no abismo de meus sonhos. Serei digno de meu cajado e da companhia dos espíritos dos montes, e proferirei palavras de poder e exaltarei o Grande Nome.
Serão mensageiros os ventos e eles levarão sons, perfumes e encantos, para onde quer que eu direcione.
Quando eu estiver livre, na companhia do frescor da noite, eu pedirei às ninfas o torpor de seus cantos e saciarei minha sede na sagrada fonte que banha as raízes dos velhos carvalhos. Pedirei a permissão das rainhas entronadas em árvores e beberei em sagrada eucaristia o orvalho de suas folhas. E serei grato.
No calar da noite, quando eu estiver no centro de meu mundo, poderei ouvir todos os sons que se movimentam no silêncio, poderei ver todas as formas que se manifestam nas sombras, poderei tocar tudo aquilo sutil e disforme. Contemplarei a lua e sentirei em minha face o seu leve e prateado toque. Ouvirei meus passos, meu respirar, meu sangue, minha história.
E quando a bela coruja vier, anunciando o luto com suas plumas brancas, serei seu confidente e ouvirei seu canto. Escutarei o rasgar do pano, o tilintar de suas tesouras, e não a chamarei de rasga-mortalhas, mas de anunciadora da vida nova e despertadora do sono.
Quando a noite me envolver em seu manto de encanto, estarei atento, serei eu mesmo, ouvirei a todos. Utilizarei as sombras, sendo iniciado nos mistérios dos sonhos, e percorrerei o reino que anuncia a bela aurora a proferir o meu nome.
Serei chamado ao sagrado bosque, onde com a penumbra dançarei em um rito de vida e morte, celebrando a alquimia da suprema força e escrevendo com luz no livro negro da deusa da noite.

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