Relatos de um espírito “encarnado” (apenas uma página de qualquer diário...)


A casa do meu pai tem muitas moradas, portas para muitos quartos, diversas saídas e entradas. Saídas que podem ser entradas e entradas que podem ser saídas.
A casa do meu pai não tem espaço limitado, tem lugar para todos, embora todos pensem que só há lugar para seus semelhantes. É pena que esqueçam que Deus é semelhante a todos, sejam negros ou brancos, sejam fulanos ou cicranos, sejam prostitutas ou santas. Desculpem-me, mas não sou hipócrita (graças a Deus...).
Deus escreve certo por linhas tortas, mas quem disse que linhas tortas não são certas? E quem disse que Ele precisa de linhas para escrever? O papel pautado fica sem sentido quando se escreve perfeitamente sobre o papel branco. E o que é escrever perfeitamente? Conceitos e mais conceitos... Deveríamos tentar nos conhecer ao invés de tentar rotular o que não tem limites, só assim se conheceria a divindade. Tentativas e mais tentativas, rótulos e mais rótulos, teorias e mais teorias... Bobagens humanas... Mas sou humano, então... Estou entre o céu e a terra, portanto, não me rotulem, não me limitem, não encham meu saco. Não sou nenhuma espécie de anjo e também não sou nenhuma máquina. Sou o que sou.
E continuam enchendo o meu saco... Mas não carrego peso inútil, o que não presta eu jogo fora. O que não presta “para mim”, deixo bem claro, pois o que para mim causa náusea para outro pode ser manjar. Bobagens... Um grande saco repleto de nada, de coisas inúteis (para mim, deixo bem claro).
Na realidade não preciso de saco algum, pois o que é de verdade para mim eu vou guardando no santuário do meu coração. O saco eu deixo para as bobagens humanas. E, diga-se de passagem, que sou humano e também tenho direito de usufruir de minhas bobagens. Também quero saborear meu sorvete de ilusões, meu churrasco fictício, minha macarronada imaginária. Não quero deixar o mundo dos terráqueos, pois senão teria vindo como espírito. Preciso comer, dormir, beber, vestir, falar... Pois vivo dentro de uma máquina biológica composta de ossos e carne. Sou fogo encerrado em uma lâmpada necessária para o clareamento do caminho de muitos. Sou deus habitando em um templo de carne. Sou amor depositado em um milagroso sacrário. Esta máquina necessita de orações, de luzes, de cuidados. Esta casa necessita de vozes, de pessoas, de um ser amado. A solidão faz com que enveredemos em um labirinto frio e desalmado. Precisamos que alguém entre munido de um candeeiro onde brilhe a chama do amor para guiar-nos ao lugar certo.
O amor é a melhor das chamas. Guia-nos em noites escuras, nos aquece em tempo frio, nos ilumina no desespero, faz refletir para que possamos ver a nossa alma de deuses. Liberta-nos de prisões de incertezas, nos mostra a saída do labirinto do medo, nos salva dos abismos da descrença, nos guarda das armadilhas da ignorância. O amor é o que torna ainda possível sonhar, pois sem sonhos afundamos na lama da inexistência. É o que impulsiona um coração a outro, como partes da mesma verdade. É o que dá sentido à vida. É o que torna belo, vital e inesquecível o brilho nos olhares, os gemidos acalorados, o prazer de degustar o néctar da troca de salivas. Sem ele a vida não seria vida, seria máquina, seria fria, seria triste... Apenas um palco desalmado.

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