Vida (?)

O que fazemos de nossas vidas? Por qual perspectiva você vê a sua vida? Vida? Estamos presos a conceitos e dessa forma fica difícil viver o que seria realmente a vida. E esquecem os homens da riqueza que no instante existe. Mas é o preço por querermos congelar o incessante infinito. E então sofremos. E então nos perdemos no corredor do tempo... Ah, os instantes... Esses eternos deuses que chegam de surpresa e tatuam a pele de nossas lembranças. Estes que estão sempre a visitar o sacrário de nossos seres. Mas anjos estão sempre em movimento, estão sempre chegando e partindo. E o que fica? Sua aura radiante, a visão inesquecível, a satisfação do instante vivido, o êxtase do milagre fulminante, a alegria da lembrança que se alastra feito chama, a intensidade de um raio que cai e marca a rocha para sempre. E a rocha nunca mais será a mesma... Trará em si a cicatriz divina. Alma rasgada. Árvore aberta no tronco e para sempre marcada. Árvore antiga e sábia.
Eu, olhar vago perdido em horizonte. Eu, nuvem que vira lágrima, que empoça e mata a sede, que se dissipa em névoa e novamente volta a ser nuvem a chorar. Eu, metamorfose, fogo, movimento, vida. Vida... Voltamos à vida. E eu novamente pergunto: Por qual perspectiva você vê a sua vida? Vida? Conhecer a palavra “vida” é uma coisa, mas a vida nunca poderia se limitar a um vocábulo egoísta. Mas o que fazer se somos formadores de prisões-conceitos, se armamos um palco para contracenarmos nele? Tudo é movimento. E não há nada mais sagrado que a beleza de um momento. Viver é comungar com o instante presente. Mas como entender, se amanhã esse mesmo instante será lembrança e findará em chuva a nuvem passageira? “Findará”? O verbo mais adequado seria “transformar”. Mas como entender a fogueira? Ela, que arde, que queima, que encanta, que aquece, que conforta, que vira cinzas...e então é espalhada pelos ventos... Mas não se deve tentar entender as fogueiras — que mania essa a do homem de querer entender tudo! Deve-se, sim, buscar viver a fogueira, estes momentos que são labaredas. Mas bem sei que existem os loucos que se lançam dentro da fogueira... Mundo de extremos... Eu, sacerdote do equilíbrio, anjo e demônio em dança perfeita, luz e trevas que se devoram orgiacamente. Eu, eloqüente... Poeta do absurdo. Discípulo de Hermes, mensageiro dos deuses, intermediador de céu e terra, alma fundida em carne. Viajante do tempo. Estrela cadente. Anjo esplendoroso em queda, arriscando toda sua glória eterna pelo simples desejo de sentir-se gente. Corajoso ao desafiar Deus. Sábio por saber ser ele o próprio Deus em reflexo. Tolo por querer caçar momentos. De anjo à caçador de borboletas. De que adianta eternizar as belas asas coloridas e sedutoras se a real beleza está na metamorfose da lagarta em borboleta? Se a real beleza está no casulo envolvente e passageiro... Se a real beleza está presente no balé aéreo de seu vôo...
E cá estou eu, entre anjos, fogueiras e borboletas... Preenchendo momentos, filosofando sobre o ato de “viver”, congelando palavras, somente. Mas o real instante, esse não caberá em simples linhas, em uma folha de papel. Tentativas vãs de se tentar traduzir o que é para ser eterno. Tais instantes somente o coração (a alma) é capaz de guardar com um pouco de clareza e fidelidade, mas não completamente...
Sagrado então seja o momento e suas marcas latentes no seio do pensamento. Sagrado seja o fio das tecedeiras do destino. Sagrado seja o fogo que se eterniza na lâmpada de nossos seres. Isso é vida — essa síntese... E por mais que eu tente traduzir o que sinto, só posso dizer que agradeço, simplesmente porque o instante existe. E assim eu sigo, sendo espectador e artista nesse imenso palco que é a vida. Vida... Voltamos à vida...
Até outro dia... Ou, até outra “vida”... Até...

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